setembro, 25
Demorei para perceber


Eu demorei pra perceber, mas eu achava estranho que o Théo não se importava muito com os brinquedos que a gente dava pra ele.
Eu nunca tive um boneco, personagem, um motoqueiro… quem me dera ter tido brinquedos tão legais assim na minha época. Ter um carrinho que canta, brilha e te ensina até cores, algo que eu jamais sonhei em ter. Afinal, na minha época, tudo que ia a pilha era muito caro.
E aquela piscina de bolinha? Ele já teve uma com menos de um ano e nem ligou. Na verdade, o Théo não ligou pra muitos brinquedos que eu nem citei aqui.
Eu demorei pra perceber e achava estranho que qualquer coisa que eu fazia com o Théo nos prendia mais juntos do que qualquer brinquedo que eu desse pra ele.
Eu demorei pra perceber que quando ele fixava o olhar em mim e se perdia no tempo, ele estava querendo me dizer que aquele boneco nunca seria igual aos voos que ele faz nos meus braços com aquele sorriso de quem está voando nas nuvens, com a sua capa, pronto para salvar meu mundo.
A piscina de bolinha nem chega perto das nossas guerras de travesseiro e as nossas cavernas de cobertores.
E quando a gente faz a nossa lutinha do “sai fora, sai fora, não me toca” — uma brincadeira minha com o Theo — eu percebo o quanto ele ama esses momentos.
Ah, como eu demorei pra perceber que a melhor brincadeira pro Theo é aquela que eu sou o pai dele. E que ele é meu filho.